Da margem ao centro do entretenimento
A cultura pop asiática deixou há muito de ser um fenómeno limitado aos seus países de origem. Nas últimas duas décadas, o K-pop, os doramas coreanos, japoneses e chineses, os animes e até os formatos de programas de variedades passaram a influenciar playlists, tendências de moda, redes sociais e produções audiovisuais no Ocidente.
O crescimento foi acelerado pela internet. Plataformas como YouTube, Netflix, Spotify, TikTok e Viki reduziram barreiras de distribuição que antes dificultavam a chegada de conteúdos em coreano, japonês ou mandarim ao público brasileiro, português e internacional. Hoje, legendas em vários idiomas, comunidades de fãs e lançamentos globais fazem parte da estratégia das grandes empresas de entretenimento asiáticas.
O K-pop é um dos casos mais visíveis. Grupos como BTS, BLACKPINK, EXO, TWICE e Stray Kids ajudaram a transformar músicas cantadas maioritariamente em coreano em sucessos mundiais. Em 2020, BTS tornou-se o primeiro grupo sul-coreano a liderar a Billboard Hot 100 com “Dynamite”, uma faixa em inglês. Mais tarde, a banda repetiu o feito com outras canções, consolidando uma presença que já não podia ser tratada como passageira.
O sucesso não depende apenas das canções. A indústria do K-pop combina música, dança, vídeos de alta produção, interação digital e uma imagem cuidadosamente construída. Entre os elementos que mais atraem o público estão:
- coreografias marcantes, frequentemente reproduzidas em desafios no TikTok e em aulas de dança;
- videoclipes cinematográficos, com figurinos, cenários e narrativas visuais elaboradas;
- lançamentos pensados para fãs, incluindo álbuns físicos com fotografias, cartões colecionáveis e conteúdos exclusivos;
- contacto constante nas redes sociais, através de transmissões ao vivo, vídeos curtos e mensagens em aplicações próprias;
- fandoms organizados, capazes de promover artistas, financiar projetos e mobilizar audiências internacionais.
Doramas e histórias que atravessam fronteiras
Os doramas, termo popularmente usado no Brasil para séries asiáticas, também ganharam espaço expressivo no consumo ocidental. A Coreia do Sul tornou-se particularmente relevante com produções que misturam romance, comédia, suspense, fantasia e crítica social. Séries como “Pousando no Amor”, “Pretendente Surpresa”, “Itaewon Class” e “Goblin” conquistaram audiências pela forma direta como trabalham emoções, relações familiares e conflitos pessoais.
O grande ponto de viragem ocorreu com “Round 6”, lançada pela Netflix em 2021. A produção sul-coreana tornou-se a série mais vista da plataforma na altura, alcançando mais de 111 milhões de contas nos primeiros 28 dias, segundo dados divulgados pela empresa. Além do suspense, a série chamou atenção pela crítica à desigualdade, ao endividamento e à competição económica extrema.
O interesse pelos doramas está ligado a características que diferem de muitas séries ocidentais. Em geral, as temporadas têm menos episódios, apresentam histórias mais fechadas e apostam numa evolução emocional clara dos protagonistas. O romance pode desenvolver-se lentamente, criando expectativa sem depender apenas de cenas explícitas ou reviravoltas constantes.
Também existe curiosidade cultural. Gastronomia, etiqueta, idioma, ambientes escolares, tradições familiares e bairros de Seul, Tóquio ou Xangai tornam-se parte da experiência de assistir. Não é raro que uma série aumente o interesse do público por pratos como kimchi, ramen e tteokbokki, ou por destinos turísticos mostrados nas cenas.
O impacto no Ocidente e os próximos passos
A influência asiática já pode ser vista no entretenimento ocidental. Artistas internacionais colaboram com nomes do K-pop, marcas de luxo escolhem idols como embaixadores e serviços de streaming investem em conteúdos locais para um público global. A parceria entre Rosé, do BLACKPINK, e Bruno Mars em “APT.”, por exemplo, demonstra como as fronteiras entre mercados musicais estão cada vez menos rígidas.
Ao mesmo tempo, o crescimento levanta debates importantes. A pressão sobre artistas jovens, os padrões de beleza rigorosos e o comportamento excessivo de alguns fãs são temas frequentes dentro e fora da Ásia. Consumir estes conteúdos de forma crítica ajuda a valorizar o trabalho criativo sem ignorar os desafios da indústria.
O avanço da cultura pop asiática não significa que o entretenimento ocidental esteja a perder espaço. Pelo contrário, revela que o público está mais aberto a histórias, idiomas e estilos diferentes. O que antes era visto como nicho tornou-se uma força global, capaz de mudar rankings musicais, hábitos de consumo e a forma como milhões de pessoas descobrem novas referências culturais.