Cuidar de uma criança raramente foi tarefa de apenas duas pessoas
A ideia de que mãe e pai devem dar conta sozinhos de todas as necessidades de uma criança é relativamente recente em muitas sociedades urbanas. Em diferentes regiões do mundo, o cuidado infantil é tradicionalmente partilhado entre avós, irmãos mais velhos, tios, vizinhos e amigos próximos. Esta prática é conhecida como alloparentalidade, ou “criação compartilhada”.
O termo vem do grego allo, que significa “outro”, e refere-se a qualquer pessoa que oferece cuidados regulares sem ser o pai ou a mãe da criança. Não se trata de substituir os progenitores, mas de ampliar a rede de afeto, proteção e aprendizagem.
A antropologia mostra que os seres humanos evoluíram em grupos cooperativos. Durante grande parte da história, criar uma criança exigia apoio coletivo, sobretudo porque os bebés humanos dependem de adultos por um período longo. Essa colaboração permitia que os cuidadores procurassem alimento, trabalhassem, descansassem e cuidassem de outras crianças, enquanto os mais novos continuavam acompanhados.
Em muitas famílias atuais, essa rede continua a existir, ainda que com formatos diferentes:
- avós que ajudam na rotina, nas refeições ou nas idas à escola
- irmãos mais velhos que brincam, ensinam e acompanham os mais novos
- vizinhos e amigos de confiança que formam redes de apoio no dia a dia
- educadores e cuidadores que assumem um papel afetivo importante fora de casa
- comunidades locais que organizam atividades, acolhimento e proteção
Partilhar cuidados não significa que todas as pessoas tenham a mesma responsabilidade. Os pais ou responsáveis legais continuam a ser as principais referências, mas a criança pode beneficiar de relações seguras com vários adultos.
Como diferentes culturas transformam o cuidado em comunidade
As formas de criação coletiva variam muito. Não existe um único modelo ideal, e cada prática deve ser compreendida no seu contexto cultural, económico e familiar.
Entre povos caçadores-coletores, como os Aka, da África Central, é comum que bebés passem tempo no colo de vários adultos e crianças mais velhas do grupo. Os pais participam ativamente dos cuidados, enquanto parentes e membros da comunidade ajudam a acalmar, alimentar, transportar e entreter os pequenos. A proximidade física e a disponibilidade de várias pessoas reduzem o isolamento de quem cuida.
Em comunidades maias de partes da Guatemala e do México, crianças mais velhas frequentemente participam das tarefas familiares e aprendem a cuidar dos menores observando os adultos. Essa participação pode fortalecer o sentimento de responsabilidade e pertencimento, desde que não retire da criança mais velha o direito de brincar, estudar e descansar.
Na tradição whāngai, do povo Māori, na Nova Zelândia, uma criança pode ser criada por familiares alargados, como avós ou tios, mantendo ligação com a família de origem. A prática está associada à continuidade dos vínculos de parentesco, à identidade e à responsabilidade coletiva.
Também em várias sociedades africanas e latino-americanas, a expressão “é preciso uma aldeia para criar uma criança” traduz uma realidade prática. A “aldeia” pode ser a família extensa, a rua, a comunidade religiosa ou um grupo de pessoas que se conhece e estabelece confiança.
Estas experiências revelam alguns valores comuns:
- interdependência, em vez de sobrecarga individual
- pertencimento, porque a criança reconhece que faz parte de um grupo
- aprendizagem social, por meio da convivência com idades e experiências diferentes
- transmissão cultural, incluindo língua, histórias, hábitos e celebrações
- apoio emocional, especialmente em momentos de doença, luto ou mudanças familiares
O que a criação compartilhada pode ensinar às famílias de hoje
A alloparentalidade não exige viver numa aldeia ou seguir uma tradição específica. Em cidades grandes, ela pode aparecer em gestos simples e organizados: uma avó que busca a criança na escola, dois vizinhos que alternam o acompanhamento no parque ou famílias amigas que se apoiam em emergências.
Para os adultos, uma rede confiável pode reduzir a sensação de solidão e a exaustão associada à parentalidade. Para as crianças, o contacto com diferentes pessoas pode ampliar repertórios, fortalecer competências sociais e oferecer referências afetivas diversas. Contudo, qualidade é mais importante do que quantidade. Uma criança não precisa de dezenas de cuidadores, mas de relações consistentes, respeitosas e seguras.
Ao construir essa rede, alguns cuidados são essenciais:
- escolher pessoas que respeitem os valores e os limites da família
- comunicar claramente horários, alimentação, saúde e regras de segurança
- ouvir a criança sobre como ela se sente com cada cuidador
- evitar delegar responsabilidades inadequadas a irmãos mais velhos
- manter os responsáveis informados e presentes nas decisões importantes
A criação coletiva não elimina os desafios da parentalidade, mas lembra algo poderoso: cuidar também pode ser um ato comunitário. Quando há confiança, diálogo e respeito, uma rede de apoio ajuda crianças a crescerem cercadas por mais vozes, histórias e possibilidades de afeto.