Um continente que importa quase todas as vacinas
A pandemia de covid-19 expôs uma desigualdade que já existia há décadas: enquanto países com capacidade industrial asseguravam doses rapidamente, grande parte de África dependia de importações, doações e cadeias logísticas internacionais. Segundo dados frequentemente citados pela Organização Mundial da Saúde, menos de 1% das vacinas utilizadas no continente africano era produzido localmente no início desta década.
Essa dependência tem impactos que vão além do atraso na vacinação durante emergências. Quando há elevada procura global, os países produtores tendem a priorizar os seus próprios mercados. Além disso, interrupções no transporte aéreo, escassez de frascos, restrições à exportação de ingredientes e oscilações cambiais podem comprometer campanhas de imunização essenciais.
A União Africana estabeleceu uma meta ambiciosa: produzir em África 60% das vacinas necessárias no continente até 2040. O objetivo não significa que cada país terá uma fábrica, mas sim que haverá uma rede regional de investigação, produção, controlo de qualidade, regulação e distribuição.
A produção local pode trazer benefícios concretos:
- resposta mais rápida a surtos de doenças infecciosas;
- maior segurança no abastecimento de vacinas de rotina, como as contra sarampo, poliomielite e febre-amarela;
- criação de empregos qualificados nas áreas de ciência, engenharia, logística e saúde;
- redução da dependência externa em momentos de crise internacional;
- desenvolvimento de vacinas adaptadas às necessidades epidemiológicas locais.
A questão é especialmente relevante porque África tem uma população jovem e em rápido crescimento. Estimativas demográficas indicam que o continente poderá concentrar cerca de um quarto da população mundial até 2050. Garantir programas de vacinação sustentáveis será decisivo para proteger milhões de crianças e adultos.
Tecnologia, fábricas e conhecimento científico
A fabricação de vacinas é uma das atividades mais complexas da indústria da saúde. Não basta construir instalações modernas: é necessário assegurar profissionais especializados, fornecimento de matérias-primas, laboratórios de controlo, normas rigorosas de qualidade e autoridades reguladoras robustas.
Nos últimos anos, surgiram iniciativas relevantes. Na África do Sul, empresas como a Aspen Pharmacare ganharam destaque na produção e no enchimento de vacinas. O país também acolhe um centro de transferência de tecnologia de ARN mensageiro, apoiado pela OMS, com o propósito de ampliar a capacidade de desenvolvimento de vacinas baseadas na plataforma usada em alguns imunizantes contra a covid-19.
O Ruanda, por sua vez, recebeu investimentos para instalar unidades de produção com tecnologia de ARN mensageiro. Senegal tem reforçado a capacidade do Institut Pasteur de Dakar, instituição conhecida pela experiência na produção de vacinas contra a febre-amarela. Outros países, como Egito, Argélia, Marrocos e Nigéria, também têm apresentado projetos industriais e parcerias internacionais.
A tecnologia de ARN mensageiro é vista como uma oportunidade estratégica porque pode ser adaptada com relativa rapidez quando surge um novo agente infeccioso. Ainda assim, especialistas alertam que a autonomia não depende apenas de uma plataforma. África precisa de capacidade para produzir diferentes tipos de vacinas, incluindo as de vírus inativado, proteínas recombinantes e vetores virais.
Há também doenças que merecem atenção prioritária no continente:
- malária, responsável por centenas de milhares de mortes todos os anos, sobretudo entre crianças;
- tuberculose, que continua entre as principais causas de morte por doença infecciosa;
- ebola e marburg, capazes de provocar surtos graves em algumas regiões;
- febre de lassa, presente em partes da África Ocidental;
- cólera, frequentemente associada a falhas no acesso a água potável e saneamento.
Autossuficiência africana fortalece a saúde global
Produzir mais vacinas em África não é uma questão apenas regional. É uma medida de segurança sanitária global. Vírus e bactérias não respeitam fronteiras, e atrasos na deteção ou no controlo de surtos podem afetar países de todos os continentes.
Uma rede africana de produção pode tornar o mundo mais preparado para futuras pandemias. Em vez de concentrar a fabricação em poucos países, a diversificação reduz riscos causados por desastres naturais, conflitos, bloqueios comerciais ou falhas industriais. Trata-se de aplicar à saúde pública um princípio conhecido nas cadeias de abastecimento: não depender de uma única fonte.
No entanto, para que as fábricas sejam sustentáveis, é preciso garantir procura regular. Produzir apenas durante uma crise não mantém equipamentos, equipas e padrões de qualidade ativos. Por isso, governos africanos, organismos internacionais e compradores globais precisam estabelecer contratos de longo prazo para vacinas de rotina.
O sucesso dependerá de cooperação, mas também de decisões locais. Investir em formação científica, reforçar agências reguladoras, facilitar o comércio entre países africanos e proteger o financiamento da saúde são passos tão importantes quanto instalar máquinas de alta tecnologia.
A imunização local não substituirá imediatamente as importações, mas pode alterar profundamente o equilíbrio global. Ao transformar conhecimento em capacidade produtiva, África ganha maior autonomia para proteger a sua população e ajuda a construir um sistema internacional de saúde mais justo, rápido e resiliente.